A proposta do conteúdo disseminado nesta página é refletir sobre a ciência da
complexidade, ou o paradigma da complexidade, no sentido disseminado por pensadores contemporâneos como o sociólogo francês
Edgar Morin, e observar suas implicações para as organizações (empresas e instituições) e para a prática da gestão nos últimos tempos.
O atual cenário de profundas
mudanças, instabilidades e incertezas que tem permeado o nosso cotidiano, em todos os campos da vida humana, seja pessoal, social, cultural, tecnológica, científica, religiosa, econômica ou ecológica – a mais emblemática, permite-nos dizer que a humanidade hoje vive um momento crítico de sua história. Logo, podemos afirmar que estamos presenciando uma
MUDANÇA DE ÉPOCA, similar ao que ocorreu na história da civilização no início do século XVII – a chamada
revolução copernicana que marcou a transição entre Idade Média e Idade Moderna, revolução depois consolidada pela física newtoniana e por pensadores influentes como
René Descartes,
Francis Bacon,
Thomas Hobbes e outros. Naquela época, para fugir do “obscurantismo religioso” (não tão diferente do atual obscurantismo do mercado), a Ciência passou a ser o alicerce da vida humana, o que influenciaria fortemente os rumos da civilização moderna a partir de uma nova concepção de
Universo-máquina, regido por Leis fundamentais, universais e rígidas, de onde nasceu a visão mecanicista de mundo. Tal foi o impacto no modo de vida da humanidade, sobretudo no ocidente, causado pelas descobertas de Isaac Newton no campo da física, que em seu epitáfio certificou-se: “A natureza e suas leis escondiam-se na noite; Deus disse: ‘Faça-se Newton’, e tudo fez-se luz”.
Esse Universo-máquina de Newton e Descartes, paradigma ainda dominante hoje na sua versão econômica, ou seja, na metáfora do
Universo-mercado, não atende mais a realidade caótica e precária deste início do século XXI, em que a humanidade vê-se mergulhada em uma crise sem precedentes, onde a vida de todo o sistema Terra encontra-se gravemente ameaçada. E em um momento de crise que caracteriza uma
mudança de época, o homem começa a questionar as premissas que alicerçam seu conhecimento acerca da realidade e passa a investigar novos pressupostos para entender e adaptar-se às novas realidades e, assim, poder superar os desafios que se impõem frente à caminhada humana.
Tal fenômeno tem reflexo direto nas organizações humanas (empresas e instituições) que, em circunstâncias caóticas, vêem-se obrigadas a adaptar-se a uma
nova realidade. Ou seja, estamos vivendo uma
mudança paradigmática que também afeta o mundo das organizações. Observa-se nessa mudança de paradigma civilizacional a passagem de um modelo de
gestão classificador (ou mecânico), que vê o trabalhador apenas em sua dimensão econômica e racional (o homem reduzido a “recurso humano”), para um modelo de
gestão relacional (ou complexo), que vê o trabalhador em suas múltiplas dimensões, compreendendo-o sobretudo como
sujeito do trabalho - reflexivo, conflituoso, interativo, afetivo, crítico e criativo.
Hoje, percebe-se claramente que os fundamentos da “ciência das organizações”, construídos durante a era industrial, apresentam-se extremamente limitados diante da atual aflição humana, social e planetária. Estes fundamentos foram norteados pelos conceitos elaborados a partir do paradigma newtoniano-cartesiano, tais como: universo-máquina, equilíbrio, racionalismo, controle, homem-recurso, hierarquia, ordem, individualismo, separação, competitividade, luta, sobrevivência etc. O propósito aqui, então, é apresentar os novos conceitos de uma
nova teoria organizacional que já vem crescentemente sendo desenvolvida e aplicada nas últimas décadas e que está a indicar, por um lado, o declínio da obsoleta organização clássica da era industrial e, por outro, a emergência da
organização complexa dessa nova era do conhecimento.
Para compreendermos melhor este movimento no mundo das organizações, e sua relação com a evolução da ciência, é preciso entender um pouco desses fundamentos e da história da organização clássica. Para tanto, apresentamos a seguir uma síntese bem contextualizada pelo consultor de empresas Ruben Bauer em seu livro
“Gestão da Mudança – Caos e Complexidade nas Organizações”:
“Ao longo dos últimos 300 anos, a visão de realidade descrevia um Universo em equilíbrio (concepção de primeiro estágio), atualizada já no século XX para uma realidade sujeita a perturbações (concepção de segundo estágio), mas que tendia a retornar ao equilíbrio. Em ciência social, coube à teoria das organizações traduzir com perfeição essa ânsia pelo equilíbrio – o equilíbrio de produtividades estáveis ou sempre crescentes, de mercados estáveis ou sempre crescentes, de lucros estáveis ou sempre crescentes. (...) Contudo, até agora não houve sequer a superação completa do primeiro estágio (o equilíbrio) pelo segundo (oscilações com retorno ao equilíbrio); muito de primeiro estágio ainda subsiste nas organizações atuais. Nesse estágio, o mecanicismo é a visão predominante.
Uma burocracia mecaniza as formas organizacionais, tal qual o maquinário mecaniza a produção industrial, elevando a qualidade de fins em si fatores como eficiência, precisão, rapidez, clareza, confiabilidade e regularidade, e elegendo como meios para atingi-los a divisão e especificação rígida das tarefas, o controle pela supervisão hierárquica e o estabelecimento de regras e regulamentos detalhados. Tal concepção correspondeu ao ideal weberiano de organizações funcionando como máquinas orientadas à minimização da incerteza. A palavra-chave explícita era, sem sombra de dúvida, eficiência, mas a palavra-chave implícita era equilíbrio – a permanência numa situação estável.
Em um mundo onde cada vez mais reinam a incerteza e a imprevisibilidade, as conseqüências de tamanha exaltação do ‘eficiente’ têm sido cada vez mais desastrosas. (...) À medida que tais disfuncionalidades foram se tornando evidentes, chegou-se a uma concepção organizacional de segundo estágio, com a substituição da palavra-chave eficiência pela palavra-chave eficácia. Não bastava mais fazer bem feito, era preciso agora que este bem feito fosse adequado às circunstâncias. Torna-se preciso fazer a coisa certa de um modo suficientemente certo enquanto ainda é tempo, de nada adiantando fazer certo a coisa errada, ou fazer a coisa certa tarde demais. Considera-se a existência de um meio ambiente (mercado) em evolução, que impõe às organizações a necessidade de adaptação. Outra diferença fundamental:
a sobrevivência é um processo permanente, ao passo que objetivos como eficiência ou produtividade são apenas produtos, constituídos em última análise por especificações. Na qualidade de processo, porém, a sobrevivência de uma organização constitui-se de interações, tanto internas como com o ambiente.
Competitividade e sobrevivência têm sido assim as palavras da moda até hoje. Todavia, apenas um único tipo de mudança era considerado, a mudança chamada incremental ou passo a passo. E, como já sabemos, os modelos incrementais não têm como dar conta de acompanhar mudanças que adquirem caráter de descontinuidade, exatamente como cada vez mais está ocorrendo. Essa concepção de segundo estágio, ainda predominante, considera corretamente as organizações como sistemas sujeitos a oscilações, mas assume equivocadamente que essas oscilações serão amortecidas, isto é, que as organizações são sistemas que tendem ao equilíbrio. (...) Causa e efeito têm sido assim, historicamente, os alicerces fundamentais de qualquer compreensão organizacional, desde a administração científica de Taylor e a burocracia de Weber até as proposições contemporâneas. (...)
As empresas são, dessa forma, percebidas como sistemas nos quais um agente externo (um consultor) ou um agente interno (o líder) está apto a adotar escolhas e a tomar decisões que direcionem o futuro da organização, para então requerer dos demais que sigam esses planos. Mas o mais significativo é notar que tal ênfase na causalidade linear tem raízes na visão científica clássica, hoje superada. Tudo aquilo que os dirigentes das organizações ainda pensam tratar-se de ‘administração científica’ na verdade decorre de uma concepção de ciência que poucos cientistas contemporâneos ainda defenderiam.
”